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E AGORA? ESQUECI... - Ana Deise Cardoso

Quando fui convidada a escrever esse texto passei a pensar sobre qual seria meu interesse e, depois de algum tempo e várias ideias percebi que as questões sobre memória me chamam bastante atenção. Vejo crianças e adolescentes dizendo que não se lembram do conteúdo apresentado pelo professor, que acreditam ter “problemas porque não conseguem memorizar” ou “deu branco”, adultos que falam em tom de brincadeira “olha o alemão!” para se referir à nacionalidade do descobridor da Doença de Alzheimer. Também vemos com muita frequência alguns filmes e artigos crescentes sobre esse assunto tão atual e preocupante.

Estudar sobre a memória é instigante. A forma de pensar, de agir, de planejar e de realizar o futuro depende daquilo que o indivíduo sabe e daquilo que se lembra que sabe. O sujeito é constituído por sua cultura, história, hábitos, costumes, profissão e assim vai se caracterizando como único, com seu conjunto de memórias que marca sua história de vida.

A memória representa, portanto, o armazenamento do conhecimento sobre o mundo. As informações armazenadas dizem respeito às experiências perceptivas e motoras, bem como as vivências internas que são os pensamentos e emoções.

Freud, em sua obra, nos deu grandes contribuições sobre memória, desde quando ele falou da lembrança do prazer etimológico como fonte de fantasia (1897); ao registrar o mecanismo psíquico do esquecimento (1898) e o esquecimento de nomes (1901).

O trabalho de Freud, sobre a memória, foi no objetivo de pontuar a função dos traços mnêmicos ao registrar as impressões emocionais (1895), a memória inconsciente, como também salientar a importância do consciente para armazenar e recordar fatos.

Freud investigou diferentes formas de memória e diferentes formas de recordar, porque aí se insere a possibilidade de entender diferentes patologias e se estabelecer, também, uma forma de tratamento na recuperação dessas memórias. Para a psicanálise é importante recordar sempre, mas também, não é possível recordar tudo. Pelo contrário, precisamos esquecer e isso é uma forma de nos adaptarmos às demandas do meio ambiente. E quanto àquelas memórias, que não tiveram uma resolução pelo seu aspecto traumático, pelo seu aspecto reprimido? Nesse sentido o método psicanalítico foi original e trouxe uma possibilidade de tratamento.

Freud escreveu vários textos privilegiando a memória. Dirigiu críticas sobre as teorias existentes e propôs uma nova perspectiva sobre o tema da perturbação da linguagem e distúrbios da memória (1891); ressaltou a importância da memória como “o retorno de uma lembrança” (1892); formulou que a memória é composta de uma parte inconsciente e de um componente emocional importante; destacou a importância do registro mnêmico se desdobrar em vários tempos e seu significado se manifestar por vários indicadores e arranjos (1896); discorreu sobre o esquecimento, lembranças encobridoras, lapsos e atos falhos (1901); afirmou que o psiquismo é um conjunto de representações investidas de afeto (1915); baseou-se na compulsão a repetição para explicar a atuação das lembranças reprimidas, sem consciência dessa atuação (1920); e concluiu em 1895 que uma teoria psicológica digna de consideração precisa fornecer uma explicação para a memória.

Em suma, a atenção e a memória são necessárias para a sobrevivência da história pessoal. A memória liga o presente ao passado e nos faz entender quem somos.

Em Além do Princípio do Prazer (1920), Freud retoma a reflexão que “a psicanálise era primeiro e acima de tudo uma arte interpretativa” para, a partir de então discutir a função da memória na técnica que passava da então sugestão para a transferência. Esses conceitos têm sido ampliados por autores contemporâneos que contribuem com a teoria e técnica de tratamento.

A psicanálise afirma que algumas memórias tem a função de recordar-se sempre das dores do indivíduo; enquanto outras fazem esquecer suas vivências.

Nem uma nem outra estratégia substitui o saudável esforço de ressignificar uma história que ainda continua a ser escrita. O caminho que se descobre na psicanálise é uma redescoberta da memória.

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund (1891). A interpretação das afasias. Lisboa: Edições 70, 1977.
______________ (1892). Carta a Josef Breuer. In: Obras completas de Sigmund Freud (ESB). v.I Rio de Janeiro:  Imago, 1969, p. 219 – 220.
______________ (1895) A hereditariedade e a etiologia das neuroses. In: Obras completas de Sigmund Freud (ESB). v.III Rio de Janeiro:  Imago, 1969, p. 147.
______________ (1896) Carta 52. In: Obras completas de Sigmund Freud (ESB). v.I Rio de Janeiro:  Imago, 1969, p. 324 – 327.
______________ (1897) Carta 57. In: Obras completas de Sigmund Freud (ESB). v.I Rio de Janeiro:  Imago, 1969, p. 335 – 337.
______________ (1898) O mecanismo psíquico do esquecimento. In: Obras completas de Sigmund Freud (ESB). v.III Rio de Janeiro:  Imago, 1969, p. 259 – 266.
______________ (1901) Psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras completas de Sigmund Freud (ESB). v.II, Rio de Janeiro:  Imago, 1969, p. 19 -208.
______________ (1915) Repressão. In: Obras completas de Sigmund Freud (ESB). v.XIV Rio de Janeiro:  Imago, 1969, p. 169 – 182.
______________ (1920) Além do princípio do prazer. In: Obras completas de Sigmund Freud (ESB). v. XVIII, Rio de Janeiro:  Imago, 1969, p.31-32.
______________ (1895) Projeto para uma psicologia científica. In: Obras completas de Sigmund Freud (ESB). v. I, Rio de Janeiro:  Imago, 1969, p. 408 – 509.
 

Ana Deise Cardoso