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E PORQUÊ O CORPO NA PSICANÁLISE - MARIA DE FÁTIMA CHAVARELLI

Quando a diretora científica da SPMS, a colega Leila Tannous, fez-me a proposta para a fala de abertura neste Simpósio, que tem como título: O CORPO EN-CENA: psicanálise, arte e cultura, logo de início, ocorreu-me que a presença deste tema “corpo”, na área psicanalítica, pode provocar, em um bom sentido, diferentes controvérsias e que podem ainda serem abertas em múltiplas perspectivas.   
É minha intenção, neste momento inicial dessa jornada de três dias, fazer um sobrevoo panorâmico e vale dizer, incompleto, sobre a temática do CORPO para a psicanálise e algumas de suas implicações culturais, sem me ater em minucias teóricas, o que certamente irá acontecer nas mesas que serão apresentadas amanhã, sábado e durante o Curso a ser desenvolvido neste Simpósio. Enfim, essa reflexão inicial tem o objetivo de funcionar como um elemento disparador para nossos trabalhos subsequentes.
 Talvez possamos começar a pensar que a questão basal é que, qualquer área do conhecimento se caracteriza pela especificidade de seu objeto de estudo e no caso da psicanálise, este objeto é o Inconsciente. Ao colocarmos em Cena o Corpo, estaríamos nos afastando do campo psicanalítico? Esta é uma das primeiras controvérsias que poderíamos abordar.
Em segundo lugar, de que Corpo, estaríamos falando? Como apontam alguns teóricos – de um corpo imaginário?
Frente a estas proposições, qual é o lugar do Corpo na Psicanálise?

De saída, podemos pensar que O CORPO aparece como objeto de estudo que abarca diversos campos do conhecimento e pode ser investigado a partir de diferentes ângulos: o CORPO é o corpo da biologia; o corpo da anatomia e dos procedimentos invasivos e intervencionistas da medicina; pode ser o corpo social, da sociologia; o corpo das artes plásticas, objeto de estética, de contemplação e admiração; o corpo da dança, dos movimentos rítmicos; o corpo da história com as suas distintas concepções e modificações ao longo dos períodos, e entre outras tantas, o corpo subjetivo da psicanálise. Em outras palavras, podemos pensar que o CORPO está presente como objeto de estudo nas chamadas ciências duras e ciências moles - hard sciences  e softs sciences.
O CORPO foi escolhido como eixo para este Simpósio por estar em consonância com a temática do próximo Congresso de Psicanálise da Federação Psicanalítica da América Latina e aqui já poderíamos nos interrogar o porquê da eleição do mesmo para a Comunidade Psicanalítica.
Podemos pensar inicialmente nos paradoxos das grandes discussões psicanalíticas acerca do CORPO na atualidade: por um lado, enquanto clínicos contemporâneos, assistimos à uma idolatrização e espetacularização do CORPO não só em termos da cultura, como também à um avanço incontestável na medicina através dos procedimentos anti envelhecimento, tratamento das doenças, etc. Chegamos à uma marca em longevidade jamais alcançada por nenhum povo do qual tenhamos notícias. O CORPO, tal qual um altar, tem sido eleito como um local onde demonstramos nossos ideias e nosso poder. Transformou-se em tela, onde tatuamos nosso imaginário; transformou-se em playground, quando brincamos com a moda como se ele, CORPO, fosse o cabide para pendurarmos nossos adornos. Enfim, este corpo que adentra à sala de análise deveria em princípio evidenciar uma história a ser contada através de uma narrativa longa e minuciosa durante o processo analítico; ao contrário, muitas vezes o discurso não o transcende e o que escutamos são as mais recentes marcas alcançadas nas academias, de maneira tão concreta que fica quase impossível desdobrarmos a narrativa e darmos novas configurações ao discurso. Também grande parte das queixas iniciais, não poucas vezes surge a partir de um corpo que tem linguagem própria e que pede uma decodificação, através das chamadas sintomatologias atuais como anorexia, bulimia, etc. Por outro lado, assistimos discussões interessantes nas quais, os psicanalistas se inflamam e clamam pela presença deste Corpo no setting, quando se discute a eficácia ou não das análises por Skype, alegando o excesso de virtualidade em detrimento do corpóreo e sensório. Interessante as discussões contemporâneas, ora muito Corpo, ora sem Corpo. Seria este tempo o chamado período Pós Moderno com várias configurações simultâneas? A Era dos Extremos, como aponta Hobsbawm?
Na história das civilizações, vamos encontrar por exemplo, uma Grécia Clássica, entre os seculos V e IV (AC) preocupada com os Corpos perfeitos e uma Idade Média, entre os séculos V e XV, com uma ênfase no mundo espiritual em detrimento dos Corpos Gregos perfeitos.  
Sob uma perspectiva histórica religiosa, o corpo feminino na Idade Media, era visto como passível de ser possuído pelo demônio e também no século XVII, reaparece endemoniado, no episódio das bruxas de Salem.
No seculo XIX antes de FREUD, vamos encontrar o psiquiatra francês Jean-Martin Charcot, que se extasia contemplando os corpos que sofrem alterações múltiplas nas manifestações histéricas.  
Hoje, a maior parte dos trabalhos sobre o Corpo que aparece neste momento, em função do Congresso da FEPAL, tem a sua ideia inicial vinculada ao CORPO DA HISTËRICA, uma vez que é a partir deste que Freud vai se debruçar para compreender agora um Corpo que emana não mais o diabo, mas um outro ente mitológico denominado EROS.
O corpo da histérica, sofria alterações sintomáticas múltiplas advindas de uma força oriunda das energias instintivas. As alterações anatômicas, descobre ele, funcionavam como uma linguagem que tinham como finalidade exprimir a existência de um conflito indizível. Na verdade, Freud tenta mapear o caminho pulsional, o percurso de Eros e seu salto do psíquico para o somático. Por outro lado, é no conceito de pulsão que ele busca a passagem do somático para o psíquico.
O Corpo da histérica narra uma história acontecida em um tempo remoto; revela portanto, uma história emocional que não teve possibilidade de expressão a não ser pela via da linguagem somática. Até aqui, a Psicanálise em seus primórdios, ainda está muitíssimo próxima de uma ciência médica; já que ela está lidando com o soma, com o visível, pode ser descritiva e “mensurável”, e Freud tenta abordar estes fenômenos em uma linguagem neurológica. Não por um acaso, neste momento Freud a defende como sendo uma Ciência da Natureza. Nesta perspectiva, para muitos pensadores da filosofia da ciência, Freud poderia até ser concebido como um pensador positivista, dada a investigação que realiza sobre a energia e o caminho das vias somáticas e seus desdobramentos. Na histeria, o Corpo conta uma história. Nesta linha de pensamento, podemos pensar ainda que os nossos corpos sempre estarão contando a nossa história. Mesmo a genética, com os genótipos e fenótipos me contam sobre as terras distantes pelas quais caminharam errantes os meus ancestrais; assim como, me contarão alguma coisa sobre o futuro dos meus descendentes. Se este corpo revela perceptivelmente a minha idade, as minhas doenças, a minha culinária, e meu modo de vida, porque não me contaria sobre as minhas fantasias e meu mundo imaginário? E foi neste eixo que a psicanálise se desenvolveu.     
O corpo da histérica, não se assujeitava a uma aproximação puramente fisicalista, revelava ao contrário que era muito mais que orgânico e biológico e exigia considerações a partir de algum outro ponto de vista.
Certamente quando Freud sublinha que os problemas somáticos observados em seus pacientes histéricos eram produzidos por uma história subjacente, mas que estava reprimida e fora do alcance da memória imediata, portanto inconsciente, ele não estava falando do corpo do mesmo modo que os neurologistas ou fisiologistas da época.
Importantíssimo ressaltar que também não se tratava, como muitos interpretaram, de libertar o mundo psíquico do reducionismo fisicalista para impô-lo em um movimento reverso, igualmente reducionista.
A noção de corpo suposta em Freud é mais abrangente do que somente um corpo-organismo; ela contempla “um muito além” de um corpo em sua materialidade biológica e orgânica, lembrando que ele ainda discute a submissão somática e a noção de órgãos de impacto.
Sobre os sintomas histéricos e a complacência somática, a conversão oferece um bom exemplo de como o Corpo é considerado por Freud tanto em seu aspecto orgânico e biológico, quanto em seu aspecto simbólico e imaginário; em outras palavras, como organismo e como sujeito.
No final do século XIX, por influência dos trabalhos de Charcot, conforme já citado anteriormente, a problemática apresentada pela histeria à medicina, com o seu método anátomoclínico estava em pauta. A histeria se caracterizava por sintomas de ordem somática, como nevralgias, anestesias, paralisias, convulsões, vómitos, anorexia, etc. O ponto comum era a impossibilidade de encontrar uma etiologia orgânica e por causa disso, alguns consideravam tratar-se de simulação. Para Freud, ao contrario, os sintomas histéricos deveriam ser considerados expressão simbólica de um conflito psíquico; dessa forma, o que caracterizava os sintomas de conversão seria seu carater altamente simbólico, pois utilizavam o corpo para exprimir significações. Assim sendo, o sintoma para Freud assume um sentido absolutamente diverso da medicina, na medida em que é entendido como pantomina do desejo inconsciente, expressão do recalcado.
A anatomia à qual a histérica se refere quando fala das partes “lesadas” de seu corpo é a de uma consciência e uma linguagem ingênuas e corriqueiras, sem nenhuma relação com conexões fisiológicas ou neurológicas reais.
O sintoma por não ter relação com nenhuma lesão anatômica, assume uma dimensão simbólica que ganha vida na palavra da histérica. O Corpo assume uma função imaginária de modo relativamente independente de sua realidade material, já que não há lesão ou afecção física diagnosticável.
Vemos então, por um lado um Freud que precisa se apoiar na concepção de um estatuto da biologia e por outro, uma necessária ruptura com a tão somente noção fisicalista. Temos um Freud que se apoia por um lado na Biologia e por outro, um Freud que tal qual um pendulo se ancora no imaginário.  
 A relevância desta questão se faz importante pela constatação de que boa parte dos psicanalistas, sobretudo os que sofreram forte influência da escola francesa, foram marcados por uma fetichização teórica e clínica do aspecto simbólico e imaginário do corpo, negligenciando talvez, o quanto sua natureza orgânica e biológica também participa de modo determinante na configuração, na ocorrência e nos destinos dos processos psíquicos. Para discutir esta questão é necessário pensar um pouco mais sobre como O Corpo é tratado na teoria freudiana.
Em primeiro lugar, vamos encontrar a noção de pulsão como um conceito que se localiza na fronteira entre o psíquico e o somático. Para Freud, a pulsão se origina no interior do organismo e exerce uma ação constante sobre o psiquismo, da qual é impossível se furtar. Segundo suas formulações, as pulsões sexuais estariam apoiadas inicialmente nas funções vitais (pulsões de auto conservação)  e só secundariamente se tornariam independentes. Isso equivale a dizer que o pulsional e o biológico se apoiam mutuamente. Possivelmente por este motivo, ao apresentar suas formulações sobre a noção de órgão de apoio e o conceito de pulsão, Freud apontava para as fronteiras, para os pontos de conjunção e disjunção entre os campos da biologia e da psicanálise. Sendo a pulsão originada no corpo biológico e exigindo um trabalho incessante da mente, ela tem uma inscrição de traços simultaneamente psíquicos e corporais.  
Percebe-se como o conceito de pulsão afeta a noção de Corpo. A pulsão tem a sua fonte em um lugar no corpo, mas ela converte a excitação corporal em uma exigência psíquica. Ela exterioriza no psiquismo, aquilo que lhe é exigido pela coerência com o corporal.

Em “A Concepção Psicanalítica da Perturbação Psicogênica da Visão, (Freud, 1910), afirma sua convicção de que os fenômenos psíquicos se baseiam nos físicos. Neste texto Freud ainda aponta que o corpo está assujeitado a dois senhores: às funções biológicas e às psíquicas.  
Seguindo a construção do raciocínio sobre o lugar do corpo na psicanálise, vamos encontrar a noção de um “EU”. Utilizo a palavra EU, em consonância com a tradução do Dicionário de Psicanálise de Alain Mijolla (2005), para o conceito de EGO.
Continuando nosso percurso de raciocínio, em 1923, Freud escreve:

O Eu em última análise deriva das sensações corporais, principalmente das que se originam da superfície do corpo. Ele pode ser assim encarado como uma projeção mental da superfície do corpo, além de, como vimos anteriormente, representar as superfícies do aparelho mental.
( FREUD, S. 1923/1988; p.238).
                
A discussão que se coloca é que mesmo sendo o EU, antes de tudo um Eu corporal, isso não significa que ele seja exclusivamente corporal. O EU como uma instancia, organiza e articula os processos psíquicos. Ele é simultaneamente, a superfície do corpo e a projeção mental dessa superfície; ele é massa e é imagem. O Corpo intervém na formação do EU e o Eu é estruturado como o Corpo.
Frente ao discorrido, podemos perceber que Freud transformou a concepção dualista de sua época acerca das relações entre corpo e psiquismo, indicando que a pulsão seria o lugar no qual se daria esse encontro.  A pulsão como força constante, uma pressão do corpo exigindo um trabalho do psiquismo, inaugura a ideia de um EU subjetivado.
Lembremos que a Psicanálise nasce a partir do confronto de um corpo biológico com o corpo imaginário produzindo sintomas. Posteriormente, esse corpo da psicanálise, que envidencia a sexualidade trará à tona uma lógica que será determinada pelo desejo.
Outra vertente importante sobre a presença do CORPO na Psicanálise, seria a tão difundida ideia sobre PSICOSSOMÁTICA.
Diferente do sintoma psiconeurótico, o fenômeno psicossomático não possui caráter de representação. No fenômeno psicossomático o Corpo se deixa escrever algo que não consegue ser dialetizável, algo imprime uma marca.   
Freud em nenhum momento de sua obra definiu uma patologia como sendo psicossomática; ele, no entanto, esteve sempre voltado às relações estabelecidas entre o Corpo e a Psique e às inúmeras sintomatologias que poderiam daí advir, tal como já citamos nos fenômenos histéricos  sintomas esses que são os maiores exemplos dessas intricadas relações sobre as quais ele pôde perceber e destacar uma enorme gama de significados simbólicos e inconscientes. Inserindo tais padecimentos no campo das psiconeuroses, todo o seu projeto clínico foi alicerçado para lidar com esses fenômenos, tomando a interpretação como instrumento principal de alcance e desvelamento dos sentidos inconscientes dos sintomas histéricos.
No entanto, não passou desapercebido para Freud que além dessas configurações, o Corpo se apresentava igualmente, como palco de fenômenos que se situavam para além do conflito neurótico. As Neuroses Atuais, demarcam o assinalamento freudiano de que existe algo que se organiza como uma dobradiça entre Corpo e Psique que, no entanto, não se reduz ao conflito edipiano e não sendo, consequentemente, da ordem do recalcado. Sendo assim, a proposta clínica para estas patologias não poderia se centrar na tentativa de alcançar os conteúdos inconscientes através da interpretação.
Por outro lado, podemos inferir que é no conceito de “Construções”, onde a linguagem não alcançou o indizível, que Freud vai tentar recuperar aquilo que não foi recalcado. É, portanto, nesta fenda entre o Corpo Máquina e o Corpo Erótico, que vão surgir as diferentes teorias da Psicossomática.    
Os desafios da Psicanálise na atualidade são incomensuráveis. Vale lembrar que ela nasce a partir de um evento da modernidade, enquanto uma experiência relativa à uma interioridade conflituada do Homem do século XIX. Aquele Homem, segundo pensadores atuais, buscava um sentido singular para as suas existências. A sintomatologia surgia em função de uma falta e de uma ameaça iminente de morte frente as guerras que assolavam a Europa. Hoje, ao contrário, vivemos como aponta Baumann, uma cultura dos excessos. Assistimos um Homem muito mais desprovido de introspecção. Este culto ao corpo faz referencia a uma Sociedade que se funda em uma super estimação de si mesmo, em um ser humano que torna-se desprovido de seu sentido histórico, atemporal, sem passado nem futuro e se limita à sua imagem no espelho. Encontramo-nos frente à uma cultura hedonista e narcísica. Parece que a nossa Sociedade está fascinada com o poder ilimitado de Narciso e fascinada igualmente com o poder ilimitado do EU. Nesse sentido infiro que há uma negação à castração assim como uma fuga das vias simbólicas.          
Se o que aponto, como sendo um tempo desprovido de introspecção é de fato uma marca do homem contemporâneo, existiria pouco espaço para a Psicanálise na atualidade, ou ao contrário, esta seria um dos últimos redutos para explorar novamente a expansão do campo imaginário?



Referências Bibliográficas.

BAUMAM, Z. Modernidade Liquida; Editora Jorge Zahar, 2001.
FREUD, S. (1910); A Concepção Psicanalítica da Perturbação Psicogênica da Visão.  Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago. 1988.
_______O Ego e o ID (1923); Edição. Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de janeiro; Imago, 1988.
HOBSBAWM, E. A Era dos Extremos. Companhia das Letras. 1995.
MIJOLLA, A. Dicionário Internacional de Psicanálise. Imago. 2005.