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Encerramento - ELISA LANZARINI


Durante todo o ano planejamos o dia de hoje. Em função da pulsão de vida nos encontramos com frequência, preparamos os detalhes, pensamos as mesas de trabalho, sonhando este momento.


A Raquel, com toda sua delicadeza e cuidado nos brindou com uma organização e dedicação que foram fundamentais e tudo transcorreu assim, como desejamos. Todas as colegas que se despuseram a compartilhar seus trabalhos tão ricos são investidas de muito orgulho.


Sabemos que falar sobre morte e vida é sempre difícil. Estamos aqui reunidos hoje, cheios de vida, ansiosos por esse momento, e hoje, de fato, ele acaba; Outros virão, outras produções, encontros, vidas e mortes.


Pensando nessa dualidade das pulsões de vida e morte, nessa completude, nessas metades, vida e morte coexistindo e se completando é que trouxe um poema de Oswaldo Montenegro, que não poderia ter um nome mais significativo e acolher tão bem o momento.


Metade
Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção

E que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também


Texto elaborado pela candidata da 7ª turma Elisa Lanzarini para o encerramento da XIII Jornada de Candidatos do IP da SPMS– Eros X Thanatos: Reflexões na atualidade que ocorreu no dia 05/11/2016.