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NARRATIVAS EM MOVIMENTO, DA DANÇA À PSICANÁLISE EM TRÊS TEMPOS - JOELMA DIBO VICTORIANO

Esse trabalho que hoje trago aqui, é fruto de uma elaboração constante de uma história pessoal com a dança. Ele não tem bibliografia, nem citações de outros autores. Não poderá ser entendido sob o domínio da razão, pois assim como na dança, ele será melhor apreendido se for ouvido pela sensibilidade da emoção. Suas reflexões se aproximam mais da ordem da sensação. A música de fundo que embala o enredo das palavras, bem poderia ser o Bolero de Ravel, pela simplicidade e pela intensidade e variações de tons que pulsam no corpo e na mente de quem um dia já o escutou ou experimentou dançá-lo.  A experiência que tive com a dança se instala em mim em estado transicional com registros que permanecem no meu corpo e na minha mente, e que muito me ajudam a compreender algumas comunicações que não cabem dentro das palavras ou aquelas outras em que as palavras ainda eram aquisições muito sofisticadas para uma determinada época.
Primeiro tempo: recordar é viver.
Aos 5 anos comecei a dançar, aos 16 anos, fui aprovada para a universidade de psicologia. Durante boa parte da faculdade, transitei entre os livros e a dança moderna contemporânea.
Da faculdade de psicologia, recordo-me do jaleco branco no laboratório, o cheiro do formol que abrigava o corpo do cadáver estendido, frio, cinza, sem identidade, sem movimento, sem alma. Me diziam que eu tinha que dissecá-lo para saber como as coisas funcionavam por dentro. Porque eu deveria dissecar a morte?  A adolescência estava às voltas com o movimento da vida, e a escolha pela psicologia havia sido trilhada nos entremeios da poesia, da música e da dança. Nos registros de um corpo-mente, vivo em movimento.
Aquele cadáver contrariava todas as possibilidades. Eu jamais poderia alcançar as sinapses daquela mente, ou as emoções que aquele corpo, humano que um dia foi, pudesse ter sentido.  
Mas ele estava ali... diante de mim com sua retidão imutável. Hoje eu entendo que eu precisava me deparar com a concretude e exatidão da morte, para entender que ela é irrepresentável em termos psíquicos de experiência prévia individual.

Naqueles tempos, eu preferia os ratos, que moravam no fundo, do outro lado do laboratório. “Rodolfo” era minha cobaia. Ele era ágil, impulsivo, era um rato adolescente, avesso a comportamentos instituídos que desconsideravam sua natureza de rato. Dele apreendi que condicionamentos castram a essência. Nunca consegui fazê-lo entender a lógica do procedimento. Ele primeiro comia ração e depois abaixava a manivela. Rodolfo me ensinou sobre o respeito à singularidade do self em sua essência histórica e que aquilo que é inato tem grande força. Aprendi que o ato de analisar só poderá promover trabalho interno se antes houver podido despertar a mente para sua própria mobilidade psíquica.
 
Voltando aos palcos. Fiz parte da companhia de dança clássica e contemporânea do nosso estado. Viajávamos o Brasil em apresentações.  Lá era o corpo! O ritmo que na ausência das palavras tinha a urgência de traduzir todas as emoções em cena.
Na dança, o ego se localiza entre o diafragma e o útero, é ali que mora a força que sustenta o movimento, a respiração é o fio condutor do ritmo e a agressividade é a mola propulsora que nos desafia a enfrentar nossos próprios limites.  Era preciso estar muito vivo pra dançar.
E o corpo vai dançar sempre com vários figurinos no recinto do mental.
Sabemos que a sensorialidade do corpo e suas manifestações sempre ocupou lugar de destaque no cenário psicanalítico.
Também é sabido que encontramos na literatura psicanalítica várias articulações da psicanálise com a poesia, com a pintura e outras formas de arte. Mas no que diz respeito a dança o material é escasso. Quem sabe porque ela não pertença ao verbal, ela está mais para o verbo, enquanto ação em movimento. Se pudesse ser falada seria outra coisa e não seria dançada. A dança não tem palavras, é manifestação quase instintiva de vitalidade, ela comunica, e o porta voz de sua linguagem, é o corpo.
E a vida vai construindo suas narrativas e nos coloca diante de escolhas contínuas! Quando entrei no terceiro ano da faculdade a coisa apertou, já não dava mais pra conciliar e eu precisava decidir entre ser bailarina ou ser psicóloga. Eu precisava mudar de palco... mas como é próprio dos jovens, eu ainda acreditava que podia ter o melhor dos dois mundos! Então...horas e horas de ensaios se mesclavam com os conhecimentos da psicopatologia, das intermináveis aulas de teologia e as cansativas aulas de estatística!! E o cadáver continuava ali... exato em sua imobilidade constante. Sem a necessidade de fazer escolha alguma, ele desafiava o rato que eu tinha dentro de mim em movimento!!

Segundo tempo: tempo de escolhas.
Foi então que entrou em cena um terceiro extremamente organizador e integrador. A descoberta da psicanálise com a minha primeira experiência de análise pessoal.
A dança foi minha maior tradução e a psicanálise minha melhor intepretação. Ou vice-versa. E ambas constituem a construção da minha subjetividade.
Refletindo sobre o que me levou a escolher pela psicanálise, tentei elaborar essa questão em termos de analogia com a dança, e a resposta para ela nunca esteve na representação simbólica do palco. A melhor analogia possível se encontra nos bastidores. Hoje me recordo que muito do que se passava no palco já se encontrava em movimento nos bastidores. E as cenas de bastidores são incrivelmente mais movimentadas que a apresentação em si.
Nos bastidores de um espetáculo, ou nas coxias do inconsciente é que se encontra a origem e magia da cena.
Quando nos deparamos com o manifesto no palco, encontramos a coreografia já pronta, já entrelaçada ao corpo, mas não alcançamos o trabalho árduo que é construí-la. Esse trabalho se revela em sua essência nos bastidores da cena, em tudo aquilo que antecede um espetáculo. As horas intermináveis de ensaio, até a coreografia se entranhar no corpo e o corpo na coreografia. Os hematomas das quedas, as frustrações, a pele em carne viva, as distenções...
Bailarinos aprendem muito cedo a suportar a dor para alcançar a leveza do movimento.
Isso me ajudou a entender que é a dor da angústia que dispara o movimento psíquico. E que a presença do outro é que viabiliza e sustenta a necessidade de continuarmos sendo...
No que diz respeito a ideia de outro, é muito interessante pensar na relação que tínhamos com nossos coreógrafos. O coreógrafo está presente durante a construção do que será apresentado posteriormente, na hora da apresentação ele fica nas coxias ou no fundo do teatro, ele nunca está no palco, mas ao mesmo tempo faz parte do contexto, se tivermos como referência maior, o espaço do teatro que acolhe o palco, os bastidores e a plateia. Não estabelecíamos com ele uma relação de disputa, mas de respeito hierárquico, as rivalidades aconteciam entre os “irmãos” bailarinos para saber que assumiria o papel principal ao mesmo tempo que precisávamos lidar com as diferenças para encontrar nosso espaço na cena e compor com os demais para dançar o espetáculo esperado. Cada um tinha seu lugar no espaço e no tempo, seu ponto mais forte. As vezes o melhor grand-getê de um precisava do movimento mais contido do outro, para compor o enredo.
O coreógrafo nos apresentava a nós mesmos, revelava nossa capacidade de executar um movimento ou nossas limitações diante do mesmo. E estava sempre atento ao todo do corpo de baile e ao movimento individual de cada bailarino.
Todos nós em algum momento da vida tivemos, ou deveríamos ter tido, um “coreógrafo particular” que dançou conosco um pas-de-deux. É na instauração do vínculo com o outro que se encontra o sujeito da comunicabilidade. Poderíamos aqui pensar na função da maternagem que inaugura o vir a ser do sujeito. É no contato com o corpo da mãe, seu cheiro, ritmo de sua respiração, tom de sua voz, que marcamos os primeiros compassos de um bailar infindável de várias cadências, que por meio da experiência confere nossa subjetividade.
Dançar é possibilidade de reencontro com um tempo interno onde a palavra ainda estava incubada. É uma forma de retorno a originalidade, ou como dizia Martha Graham, uma das precursoras da dança contemporânea e cujo pai era um psiquiatra muito interessado em Freud, “A dança é a linguagem escondida da alma”.
No início é o corpo e suas necessidades e sensações, é o movimento que vai em busca de algo, que se afasta e que se aproxima novamente, encontros e desencontros marcam o compasso do existir. A comunicação se dá por meio do grito, da agitação do silêncio, do movimento e do não-movimento das partes de um corpo vivo e pulsante. Pulsão!!
Quantas são as possíveis analogias entre a dança e a psicanálise?

Terceiro tempo:  A palavra en-cena.
Necessitamos enquanto humanos, passar do corpo à palavra. Mas é preciso que essa transição tenha um ritmo próprio e particular, e que letras, vírgulas e frases assumam características de movimento. Nem sempre a sequência é tão lógica. As vezes apenas flutuamos nossa atenção para que associações, livremente encontrem uma emoção escondida que vai entrar em cena a espera de uma representação. É mais ou menos como descobrir, sentindo no próprio corpo, que a perna que se segura lá no alto não está lá pela força, mas pelo encaixe perfeito do fêmur na bacia. E essa perna não pode ser só uma perna sustentada lá no alto ela tem que ter uma narrativa, um gesto, transmitir uma impressão, compor uma história e um enredo.
A palavra quando se apresenta, deve representar, nomear, simbolizar. Ela não é dissociada da emoção que a compõe. Uma revela o outra e ambas se constituem. Mas vale a pena lembrar que palavras não dão conta de tudo expressar, e quando isso acontece, a emoção volta ao corpo habitar. Vai buscar em seu abrigo inicial uma nova forma de se guardar, ou voltar a bailar. Por vezes enquanto analistas, na ausência de palavras para interpretar, precisamos alma de bailarino e um pas-de-deux ensaiar, diversas vezes ensaiar, suportar, elaborar, até o verbo se fazer palavra e então representar.
Lembram daquele cadáver que morava no laboratório? Ele morreu!!! Saiu do tanque de formol e foi enterrado no terreno da psicanálise de onde renasceu. A morte no terreno da fantasia não encontra exatidão, ela assume estado de dança em termos de representações simbólicas. A falta, a angústia de separação, a ansiedade de castração, são seus figurinos em constante movimento, o paradoxo das pulsões instaura a vida psíquica.
O setting analítico é nosso palco por excelência, nele compomos um corpo de baile infindável de inúmeros personagens, histórias e fantasias. Transitamos nos bastidores onde o principal coreógrafo é o inconsciente. É nas suas tramas que procuramos transitar. Somos plateia, personagem, coreógrafos e coreografados.
O corpo deitado em nossos divãs ou sentado em nossas poltronas é um corpo vivo, imperioso sob o domínio das pulsões. Os holofotes da dinâmica  transfero/contratransferencial iluminam e dão colorido a cena, nos conduz a percorrer um caminho por vezes muito antigo e por vezes inaugural no vínculo. Interpretação é palavra que nomeia nosso ofício. Sentimos no corpo e na mente o movimento do outro e nosso próprio movimento, e nesse entrelaçamento construímos um par em movimento. Assim como num palco entramos em cena e saímos da cena, esperamos o momento exato do time do outro para a iniciarmos o próximo movimento. No compasso individual e único de cada coreografia estamos sempre revelando encontros possíveis e alguns não tão possíveis. Por mais perfeito que seja o bailarino em termos técnicos, ele terá os seus pontos cegos. Uma coreografia pode ser interpretada várias vezes, mas nunca o bailarino vai ser o mesmo, ele estará modificado a cada apresentação as vezes mais leve, as vezes mais denso. Os relatos de nossos pacientes, revelam  inúmeros nascimentos, várias infâncias, cenas já vividas e sempre modificadas a cada encontro. E a cada fim de espetáculo, quando as cortinas se fecham, ainda assim a dança continua nos revelando. Lá atrás, nos bastidores do palco, vibrávamos quando dava certo, ouvíamos muitas broncas, e no dia seguinte... ensaio outra vez. E assim vamos dançando vida a fora. A dança me pertence e eu me pertenço de seus vários ritmos. Alguns em estado de puro movimento.
Para finalizar esse trabalho apresento uma poesia que penso nomeia de maneira um pouco mais linear essa narrativa de idas e vindas.


Primeiro é o tempo do ensaio.
Um corpo desajuntado,
Uma coisa pra cada lado.
Um choro de espalhamento, intenso, desmensurado.
E o grito encontra o braço, que o estreita num abraço, e cria o primeiro compasso.
E nessa dança primeira, se faz tempo e espaço.
E o corpo, pouco a pouco, vai juntando seus pedaços.
No segundo momento do tempo.
Ainda não há palavras, mas já existe o entrelaço,
Que sustenta a sensação, para que a emoção ensaie o próximo passo.
Marcado o terceiro tempo, do encontro do corpo com o sentimento,
Instala-se o primeiro ato, onde o contato realizou o fato.
Abrem-se as cortinas, o palco se revela em cena, a dança vai começar,
Num continuo bailar, coreografado pelo encontro ao som do eterno continuar.

Joelma Dibo Victoriano.