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No Escurinho do Cinema

“No Escurinho do Cinema” é uma atividade do Departamento Científico, e é coordenada pela psicanalista Gleda Brandão Araújo. Esta atividade ocorre uma vez por semestre e é aberta ao público externo. Dois integrantes da SPMS são convidados para discutir o filme com a plateia.


A Garota Dinamarquesa Exibido 22/10/16

Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de redesignação sexual. O filme, ambientado nos anos 1920, foca no relacionamento amoroso de Einar com a pintora dinamarquesa Gerda Wegener (AliciaVikander) e sua auto-descoberta como mulher, quando Gerda, na falta de uma modelo, lhe pede que pose para retratos femininos. Sua esposa aceita a cirurgia mas percebe que perdeu a pessoa com quem se casou e Hans Axgil (Matthias Schoenaerts), vem formar um triângulo amoroso.

Comentadoras: Miriam Catia Bonini Codorniz- Membro Efetivo da SPMS e SPRJ. Analista e função didática do IP da SPMS. Diretora do IP da SPMS.
Thalita Gabínio e Souza- Candidata do IP da SPMS.

 

Miriam Catia Bonini Codorniz

Quando assisti ao filme  A Garota Dinamarquesa  fiquei encantada, a fotografia belíssima,  cenas maravilhosas e o personagem de Einar Wegener/ Lili Elbe me sensibilizou profundamente, mas fazer uma reflexão sobre o filme requer um outro olhar, uma outra  forma de assistir a trama Einar e Gerda , garotas dinamarquesas.

Einar e Gerda formavam um jovem casal que tinha em comum o mundo das imagens retratadas em suas pinturas. Ele, um reconhecido artista plástico dinamarquês com sua pintura detalhista, que repetia a natureza do lugar onde nasceu. Escolheu pintar os fiordes, um dos elementos mais emblemáticos da paisagem  , que é uma enorme entrada do mar entre altas montanhas rochosas,  um braço desviaste do mar com origem nas erosões montanhosas devido ao gelo.  Einar pintava o mesmo cenário, muitas e muitas vezes repetidamente nos seus detalhes.

Gerda era uma pintora, até então desconhecida, que retratava imagens de pessoas, utilizando-se de modelos vivos. Certo dia, quando uma bailarina não comparece para a sessão de pintura, ela convida Einar para substituí-la. Nesse momento  Einar vê despertado em si algo do feminino que até então se mantinha adormecido: seu corpo e sua alma acordam ao serem tocados pelo tecido suave do vestido.

Com atuação fantástica dos atores, percebemos a sutileza dos olhares, gestos e falas que numa relação a dois identificamos normalmente como femininas ou masculinas, não importando se o autor da ação nasceu homem ou mulher do ponto de vista anatômico. Gerda ora se dirige a Einar como se fosse um homem se dirigindo a uma mulher. Em outros momentos, faz o papel da esposa apaixonada às voltas com seu marido. Quando Lili (a mulher que habita no corpo de Einar) se torna mais presente, Gerda por vezes parece estar se dirigindo a uma amiga.  Einar, por sua vez, aparece inicialmente como homem junto a outros homens, mas como mulher (Lili), se encanta por um homem que tenta lhe seduzir.

A Garota Dinamarquesa  é um filme sobre a transexualidade, mas vai além quando aborda também as relações de gênero: entre homem e mulher, entre mulher e mulher e entre homem e homem,  e nos convida a pensar nas múltiplas faces da sexualidade humana, como diria Joyce MacDougall.  Segundo esta autora "a sexualidade humana é inerentemente traumática ".

Esta afirmação apoia-se na sexualidade arcaica , que colorida pelas pulsões de vida e de morte, tempo onde amor e ódio não se distinguem é a base do desenvolvimento sexual. Esta dicotomia gera uma tensão, que acomodará  a base fundamental presente nas formas de amor e sexualidade adultos. Além disto, o  reconhecimento da alteridade (a  diferença entre si e o outro) e a aceitação da diferença entre os sexos são vivências dolorosas.  A crise edipiana , leva as crianças a buscarem um arranjo  com o desejo  impossível de entrar em contato com os dois sexos e possuir ambos os genitores, mas a monossexualidade tem que ser aceita, e esse abandono aos anseios bissexuais deverá ser compensado por outras vias, que podemos observar irão da criatividade aos desvios sexuais.

A descoberta da diferença sexual contribui para que se faça a representação , gradualmente adquirida, de um gênero nuclear. A identificação da criança como masculina ou feminina advém das representações mentais  originárias dos dados biológicos,  das imposições do inconsciente biparental e também dos conceitos do ambiente social e cultural aos quais os pais pertencem. Sendo assim podemos então dizer que  as orientações sexuais são acomodadas pela vivências da primeira infância.

Einar como transexual demonstra seu sofrimento psíquico na dor de uma total inadequação entre a sua anatomia  e seu “sexo psicológico” . Stoller  , apoiado em Freud separa os dois aspectos do conceito freudiano de bissexualidade, o biológico e o psíquico, e examina por estudos realizados com transexuais a dimensão biológica ligada ao sexo e a dimensão psíquica ligada ao gênero. Stoller concluiu que o gênero prima sobre o sexo. Este desdobramento vai permitir-lhe apreender a aquisição do feminino e do masculino (gênero) por um homem [male] ou um mulher [female] (sexo) . A expressão “identidade de gênero” toma aqui toda a sua força.


As discussões em torno da construção do sentimento de identidade sexuada têm provocado debates na história da psicanálise. Há diferenças teóricas, com repercussões clínicas, quando se considera a existência de uma masculinidade e feminilidade, inatas de acordo com a anatomia , e quando, ao contrário, parte-se da ideia que tanto a masculinidade quanto a feminilidade são adquiridas independentemente do sexo anatômico.


Desde bem cedo a criança é capaz de distinguir pai e mãe se colocando de um lado ou de outro e esta é uma forma de identificação; identificação esta que ocorre anteriormente ao complexo de castração e independentemente dos conflitos edipianos . Freud  esclarece que esta  identificação “tem um importante papel na pré-história do complexo de Édipo” , ou seja, a criança “faz” uma distinção de “gênero” independentemente da diferença anatômica dos sexos.


Mas, é um outro, inicialmente representado pela mãe, que institui o bebe e o reconhece com suas produções inconscientes. Esta imagem a qual a criança se identificará trará com ela, potencialmente, os dados que lhe permitirão posicionar-se do lado dos meninos ou das meninas sem, levar em conta as diferenças anatômicas. Esta tomada de posição será reforçada pelas identificações secundárias responsáveis pelas relações que o sujeito estabelecerá com as referências simbólicas do masculino e do feminino da sociedade onde ele está inserido: a imago originada  nesta primeira fase constitui a “fonte das identificações secundárias, sob cujo termo reconhecemos as funções de normalização libidinal” .
Podermos distinguir desta forma  duas modalidades identificatórias que farão surgir duas problemáticas que, embora frequentemente superpostas, devam ser tratadas separadamente: de um lado, o sentimento imutável que se estabelece bem cedo e que se refere ao posicionamento que a criança faz do lado do pai ou da mãe. Podemos explicar um tal sentimento por: “Eu sou menino” ou “eu sou menina”. Do outro lado, o sentimento expresso por: “eu sou masculino” ou “eu sou feminina”, que se refere a masculinidade e a feminilidade, resultado dos investimentos num corpo suporte de fantasmas marcando assim suas funções e seus desejos. A construção desse sentimento, bastante complexo e sutil, é dependente da situação edipiana cuja dinâmica só se completará na adolescência.


É nessa perspectiva que se deve distinguir o gênero no qual o sujeito se situa e sua “orientação sexual”: a chamada “escolha de objeto” heterossexual ou homossexual, não depende do “sentir-se” homem ou mulher.


Einar afirmava seguramente que ele não era um homossexual, e podemos entender sua consternação na cena da sua primeira aparição pública , acompanhando Gerda como Lili a uma festa, e envolvido por um rapaz que  o beija , imediatamente o seu nariz sangra.


A identidade sexuada é construída pela articulação entre o real e o simbólico. Embora esta construção apoie-se, na maioria das vezes, na realidade anatômica, o essencial neste processo é que ele seja simbolicamente reconhecido por um outro , encarnado naquele que acolhe a criança. É este reconhecimento que inscreve a criança na função fálica, transformando-a – a partir de sua anatomia (sexo) – em um homem ou mulher.


Retomando então,  o corpo com o qual o bebê vem ao mundo tem que ser envolvido pela linguagem para tornar-se um  corpo sexuado e simbólico, a anatomia da criança é, neste início de vida, totalmente dependente dos olhos de quem a vê; ela é apenas um suporte fantasioso o qual, na maioria das vezes, coincide com a identidade sexuada que o sujeito constrói. Ou seja, quase sempre os processos de subjetivação estão de acordo com a realidade da anatomia. Entretanto, para a psicanálise, a anatomia é sempre fantasmática, pois é resultado de investimentos libidinais mediados pelos fantasmas conscientes, mas sobretudo inconscientes, dos pais.


Desta forma observamos que a relação pais-filho começa bem antes do nascimento da criança , e ressaltamos  a importância do lugar do recém-nascido no mito familiar assim como a presença do imaginário dos pais no futuro do bebê.  Piera Aulagnier   assegura ... “A história de um sujeito não começa com ele; ela o precede e o antes determina fortemente o depois” .
Quando Einar, inicialmente relutante, aceita auxiliar Gerda substituindo a modelo, a vida dos dois pintores começou a se modificar .  Einar parece ter entrado em contato com a sua feminilidade que o excita e assusta, dando início a uma história de transformação, se tornar uma mulher .


Naquele momento, Gerda desejou que Einar fosse uma menina e que intensamente  pudesse transpirar sua feminilidade, entre sapatilhas e tules. O olhar de Gerda para Lili parece ter se sobreposto a um anterior, indo ao encontro de uma imagem primeira. Uma mãe que quer um bebe imaginado, uma criança com um corpo dotado de todos os atributos que o seu narcisismo considera necessário, independentemente do sexo do seu bebe.


Ao mesmo tempo algo também começa a  se modificar em Gerda. Esta mudança pode ser observada na sua produção artística , que deixa de ser uma reprodução sem criação e começa a ter mais e mais vida a partir do momento que passa a pintar a Lili em Einar.


Lili foi o bebe que Einar e Gerda geraram e pariram .
Lili teve um destino trágico, quando pela impossibilidade de reconhecer que a incompletude é própria na construção da identidade psicossexual de todos nós, se submete as cirurgias de mudança de sexo e morre.
Parir Lili, fruto do casal Einar e Gerda,  foi a salvação e o castigo .

"Eros e Psique"
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
 

Thalita Gabínio e Souza
Nasce um bebê... Se for menino se chamará Einer, se menina Lili... Inquietação de uma dúvida habitualmente observada na concepção de uma vida, e desde esse princípio já podemos nos questionar: seria a anatomia um destino? Não me atreveria a responder de pronto, embora  o filme também nos convide a esse questionamento. Prefiro viajar pelo destino chamado desenvolvimento humano, pelos caminhos da pulsão, tão inesperado, intrigante, cambiante, mutável, e todos mais adjetivos que couberem, sinônimos de incertezas, mas poderia chamar de beleza também. Escolha que me deixa um pouco mais segura, quando encontrei na minha bússola psíquica o norte em Freud.

Diante de tantas discussões da atualidade acerca do tema gênero, penso que meu olhar versa sobre as questões pulsionais, logo, atemporais. Assim começo a ver Einer, um adulto, preso num pântano dentro de si mesmo, mas também vejo a criança, compulsivamente brincando de pintar a imagem estática de seu conflito, quadros que marcam um lugar do passado, lugar no qual algo lhe prendeu. As primeiras questões que nos inquieta no filme é fatalmente a pergunta: ele já era assim? Foi ela que o tornou mulher? O que aconteceu no destino de Einer que se encontra com Lili? À luz da pulsão, de nosso personagem em questão, parece que ela hiberna, pondo-se durante muito tempo em estado de dormência, de entorpecimento, dirigida para outros fins. Entendo essa fixação não apenas representando um limite, mas uma possibilidade de um desenvolvimento, de novos caminhos.

Poderíamos inferir que o que prendeu Einer foi o beijo de seu amigo Hans, mas na descrição do fato por ele mesmo (Hans), vemos que antes dessa primeira experiência, Einer já era Lili, vestida com o avental de sua vó, tão linda e feminina que atraiu o olhar masculino de Hans que num impulso a beijou. Essas experiências infantis, aprisionaram parte da libido do personagem, enquanto a outra parte, seguiu seu curso de vida, crescer, namorar, se casar com Gerda. Mas seu sucesso profissional retrata a experiência primordial, e ele faz dessa fixação sua profissão, tão socialmente reconhecida. Se por um lado grande aprovação social, por outro o duro congelamento de uma parte de si.

Continuamos passeando pela vida de Einer, e chegamos até seu primeiro encontro com Gerda, ambos tem muito em comum, mas principalmente o sentimento do “estranho”, que para Freud contém a ideia de secreto e oculto, que remonta algo do infantil, muito familiar. Gerda surpreendentemente se vê estranha a primeira vez que beija Einer, e descreve: “parece que eu estava beijando a mim mesma”. Einer sente-se estranho dentro do seu próprio corpo, masculino, mas identificado com o feminino silencioso que sempre habitou dentro de si.
 De início vemos um casal, aparentemente em sintonia, que mais parecem duas crianças, naquela fase em crianças brincam com suas próprias inerentes bissexualidades. Ele se apaixona pelo atrevimento dela, e ela, por ela mesma vista nele.

Dentre outros pontos em comum encontramos a arte, ele pintava paisagens, ela ilustrava livros de moda, até que, na falta de uma modelo para suas ilustrações, Gerda coloca Einar em seu lugar, repito, coloca Einar em seu lugar, lugar que já era seu. Nesse momento o jogo do casal também se inverte, ele pintor de tamanha reputação dá lugar à ela, novo talento da pintura que só consegue seu lugar ao sol quando pinta “ela”. As pinturas preferencialmente masculinas de Gerda foram avaliadas pelo marchand como meros retratos, que passam a ganhar cenários, contextos, vida e expressão em retratos de Lili.  

Na odisseia dos pintores, Einer e Gerda, lembrei-me da explicação sobre as formas de arte, fundamentada por Leonardo da Vinci, teorizada por Freud: a pintura  opera per via di porre, pois ela aplica cor onde nada existia antes, na tela incolor, a escultura, contudo, processa-se per via di levare, visto que retira do bloco de pedra tudo o que oculta a superfície da estátua nela contida.
A relação de Einer de Gerda passa da cama para a tela, mas apesar de estarmos falando também de pintura vou inverter a metáfora de Freud, e entender a pintura do filme per via di levare, que apara tudo que oculta a superfície da forma que no bloco já continha a estátua. Lili já existia dentro de Einer. Lili vai se descortinando, no vestir delicado de uma meia fina, meia “cor-da-pele”. Até que de tanto brincar ele se torna ela, ela que há habitava nele.  E é através do toque masculino de Gerda, que Einer se vê novamente tocado como uma mulher, na intrigante cena da camisola.
Quando Lili se apresenta pela primeira vez no baile, o corpo de Einer padece, com o início seus sangramentos nasais, em coincidentes intervalos mensais, acompanhado de cólicas, algo tão feminino desaguando em seu corpo, tal como o sangramento doloroso de Gerda, diante da inviabilidade da concepção.

O filme é de tamanha profundidade, que nos faz olhar para o que é comumente rotulado de perversão com tamanha delicadeza e dor, capaz de despertar no mais resistente expectador o mais humano dos olhares, aquele olhar de quem enxerga o drama e sofrimento de uma mente aprisionada num corpo estranho, e seus desdobramentos.

O filme não seria tão encantador se não tivesse um ator tão sensível e disponível em suas partes femininas e masculinas, comum em todos nós. Ele demonstra tamanha entrega para com sua personagem, que mesmo sendo homem o ator consegue nos convencer de sua parte mulher ao atingir em cena, o mais feminino dos detalhes, corrigir delicadamente o batom passado no canto da boca.  O enredo segue a estrada da generosidade, a questão de gênero cede lugar ao afeto, a humanidade.  No ápice da narrativa,  o narcisismo de Einer grita por um corpo, um corpo que lhe parece estranho que já não o representa mais. E numa regressão tamanha de querer poder ser aquilo que já era, ele submete-se a um procedimento, que o faria nascer denovo? E não é isso que ele consegue no final de sua vida? Em seu sonho, nasce Lili... Morre um bebê...