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Sobre a verdade e a mentira: breves reflexões - Maria de Fátima Chavarelli

Para inaugurar estes diálogos no espaço comunitário de nosso site − espaço este que tem por objetivo publicar as reflexões nossas de cada dia à luz das compreensões psicanalíticas −, nossa diretora científica, Leila Tannous, fez-me o honroso convite para escrever sobre o tema “Verdades e mentiras”.

O espaço para estas publicações em nosso site visa estabelecer um diálogo com o público em geral, de diferentes áreas do conhecimento, sob o “olhar” da psicanálise. Mais que servir à veiculação de artigos científicos – o que não impede que assim o façam os colaboradores que os prefiram –, este espaço destina-se a funcionar como que uma “sala de bate-papo” com nossos leitores. Trata-se de um lugar ou de uma maneira de refletir sobre os fenômenos do dia a dia que nos impactam e provocam um pensar que pede uma troca. Dessa forma, a SPMS se oferece, por assim dizer, como interlocutora viva aos temas que se apresentam na atualidade.

O fato de não ter a pretensão de atender a normas de cientificidade internacionais não torna este espaço menos científico em sua dimensionalidade. As reflexões estarão sempre ancoradas em nossa “ciência”, porém em uma linguagem que atinja nossos “Brasis” e que, acima de tudo, desperte curiosidade sobre o pensar psicanalítico.

Habituados às trocas com nossos pares, muitas vezes é tarefa árdua para nós, psicanalistas, transformarmos o “psicanalês” em uma linguagem mais palatável ao público leigo. É esse, pois, o imenso desafio.

Entendemos que tal tarefa, longe de nos tornar menores, nos aproxima, nos capacita clinicamente e nos coloca no centro do movimento do mundo. Oxalá tenhamos êxito nessa empreitada, e para tanto contamos com a colaboração de cada membro, de cada candidato e, acima de tudo, de cada leitor ou internauta que nos visitar. Você é nosso convidado!
Sigmund Freud, o precursor da psicanálise, foi um gigante na arte de trazê-la ao público leigo. Além das conferências que proferiu para o público em geral, foi a terras distantes e falou para estrangeiros. Esse é o testemunho de sua versatilidade, do qual, acredito, fomos nos esquecendo nos tempos atuais.

Penso, ainda, que o convite para focalizar o tema deste primeiro ensaio – “Sobre a verdade e a mentira” – deva-se ao atual momento político vivido pelo povo brasileiro. Nesse “caldo” de indignações, de piadas – forma peculiar de protesto de nossa gente –, é no mínimo instigante olhar esse fenômeno à luz da psicanálise.

Quase desnecessário dizer que, apesar da satisfação de refletir e dialogar em um espaço tão diferente de meu habitual, o tema em questão imediatamente suscitou-me certo desconforto. Qual verdade?

Discutir sobre a verdade seria como tentar fazer uma tese sobre Deus – o que seria impossível certamente: afinal..., quem a detém?

Tomando então essa impossibilidade como ponto de partida para minhas reflexões, procurei colocar meus pés na estrada em que transito mais confortavelmente, que é a psicanálise, e em seu caminho incerto desenvolver minha capacidade imaginativa. Tratando-se de um pensar psicanalítico, as imagens poderiam emergir em livre associação, quem sabe? Dessa forma, resolvi aceitar e entender o que eu mesma me oferecia. Isso me daria a possibilidade de algumas construções que, certamente se não “verdadeiras”, seriam vivas e poderiam trazer-me algum frescor.

De imediato, recordo-me que, no início da psicanálise, Freud erigiu, de maneira indireta, todos os pressupostos de nossa área de conhecimento em torno do fenômeno da verdade e da mentira. Perguntou-se diversas vezes: Verdadeiro ou falso? Verdade ou mentira? E principalmente: Onde está situada a verdade?

Entendeu que o inconsciente seria aquele lugar ocupado pelas verdades insuportáveis e que, no vazio deixado em nossa consciência por essa extração, adviria uma “mentira”, simplesmente porque a verdade estaria censurada por uma contraforça realizada de maneira imperceptível por nós próprios. No entanto, a verdade censurada diante de sua força vital e impulsionada a voltar a seu lugar de origem, à consciência, encontraria, de alguma maneira, seu caminho de volta para nosso sistema de percepção consciente. Essa postulação nos faz pensar que a verdade é dotada de uma força incomensurável; portanto, tende a aparecer cedo ou tarde.

Segundo aquele momento da história do movimento psicanalítico, a verdade soterrada deixaria sua inscrição no bloco do corpo. Uso aqui a palavra “bloco” para fazer uma analogia com o bloco de mármore do escultor, tal qual Freud exemplificou em outra situação. Alguns teóricos utilizaram para isso outra metáfora: “monumento do corpo”.

O corpo, como lugar e sede dessa mentira, faria sua denúncia através de sintomas histéricos, pedindo ao mesmo tempo sua elucidação. Aqui também podemos pensar no enigma da Esfinge – todo enigma clama por uma elucidação. A máxima da Esfinge no mito de Édipo era: “Decifra-me ou eu te devorarei”. O sintoma da paciente histérica pedia por uma compreensão/decifração. À medida que ele era compreendido, cessava; ao contrário, quando não compreendido, era tal qual um câncer que se alastrava, contaminador da mente, que por sua vez se via arrastada para a insanidade. Certamente isso continua sendo válido até hoje.

Outro lugar em que ainda poderíamos encontrar “a verdade” seria no arquivo da memória: nas lembranças e recordações de nossa primeira infância, que às vezes inadvertidamente saltam a nossa mente, ainda que desconheçamos sua proveniência.

Além desses aspectos acima mencionados, Freud demonstra a verdade que nos escapa nos atos falhos, nos chistes (piadas), no brincar da criança, nos sonhos, nas tradições, nas lendas; enfim, nos rastros que se presentificam no teatro social e nas distorções que as delatam de maneira adulterada.

Nesse raciocínio, podemos lembrar que, a verdade mascarada, adoece e é o fator determinante na neurose. Ela adoece porque nos rouba a lucidez, nos divide mentalmente, deturpa a percepção, estilhaça um todo que necessita de integração para seu bom funcionamento. Nesse sentido, verdade e ética estão intimamente relacionadas.

O sintoma é, por um lado, um enigma e, por outro, uma “mentira” a ser decodificada; é um retorno falseado e ignorado pela própria pessoa diante da impossibilidade de suportar a dor da emoção suscitada. A clínica psicanalítica busca, assim, o retorno da verdade: da verdade recalcada e, portanto, desconhecida do próprio sujeito.


É importante ressaltar que a verdade a que estamos nos referindo nesse contexto não consiste na verdade factual. Esta é detetivesca, quase sherlockiana, muito embora possamos pensar que a dinâmica das “leis” que regem a verdade de um fato em si, ou os fenômenos do mundo, siga o mesmo princípio.

Na história da psicanálise, o primeiro enigma a ser decifrado foi a história do sujeito, sua história factual, o que havia acontecido com ele. Aos poucos, Freud se convence de que, embora para alguns a história fosse aquilo que determinara a neurose, para muitos havia outro fator na causa da doença, fator esse que era o mundo imaginário do indivíduo, os desejos e fantasias inconscientes, totalmente desapercebidos dele próprio, mas que estavam em ação no momento do “trauma”.

O trauma psíquico, ou a dor insuportavelmente suscitada na “alma”, causa um estrangulamento no funcionamento da mente. Trata-se de um momento de quebra de uma harmonia. A psicanálise, como já dito em outro lugar, passa a tentar decifrar o tempo estrangulado do trauma.

Dito de outra forma, a psicanálise vai se debruçar para compreender outra realidade, a qual denominamos de “realidade psíquica”. Poderíamos dizer que seria a maneira pela qual o sujeito viveu a situação em questão. Dessa forma, Freud vai abordar outra verdade, o que também tem sido apontado como essa outra realidade: não a realidade do mundo externo, mas essa realidade psíquica, ou a realidade do mundo interno − dos desejos, das fantasias e das dores insondáveis. Enquanto a verdade factual é detetivesca, a psicanalítica é a verdade do afeto que esteve presente no momento do estrangulamento do funcionamento mental e que vai ser reapresentada ou revivida infindavelmente nas relações com o mundo de maneira geral e, como não poderia deixar de ser, também na relação do par formado por paciente e psicanalista.

Gostaria agora de fazer outro corte para pensar sobre o fenômeno da verdade e da mentira em psicanálise. Trata-se dos mitos ou dos contos de fadas ou, ainda, das histórias fantásticas sobre o mundo.
A pergunta de Freud acerca da verdade está presente nos textos sobre a clínica, mas também em alguns de seus trabalhos de pesquisa sobre o fenômeno da cultura. Tanto ao escutar a fala do paciente quanto ao estudar os mitos religiosos, nota-se esta sua indagação sobre a verdade.

Sempre que nos deparamos com a palavra “mito”, logo a associamos a algo que não é verdadeiro. Estes seriam apenas histórias fantásticas, sem qualquer possibilidade de se tornarem críveis. No entanto, ao compreender a natureza e a estrutura dos mitos, Freud logo atentou para uma verdade que estaria encenada em forma de alegoria, tal qual nos sonhos. Não seria uma verdade que comportaria uma evidencia matemática. Contudo, compreendeu que os gregos utilizaram o mito como uma metáfora para falar das características da mente e do “coração” dos homens.

Os gregos intuíram essa dimensão e trataram de utilizá-la para falar de seu dia a dia. Eles precisaram de seus mitos para realizar sua arte, poesia, religião e organização social. Sendo assim, os mitos, em sua origem, revelam os pensamentos e desejos reprimidos no inconsciente da humanidade. Os deuses da mitologia travam batalhas com seus filhos e herdeiros, apaixonam-se por eles e também os devoram; matam-se entre si, invejam, odeiam; mulheres mais velhas matam as jovens por inveja e competição e as jovens querem o lugar das deusas maiores; e, ainda, jovens belos apaixonam-se por si mesmos. Mentira ou verdade?

Se os gregos utilizaram os mitos – essas supostas “teorias” – para se organizarem, Freud acaba por concluir: Não será verdade que cada ciência, no final das contas, se reduz a um certo tipo de mitologia?

O que estamos tentando aqui questionar não é mais a verdade do afeto – penso que esta deva estar claríssima –, mas sim a veracidade ou não das coisas do mundo. Seriam verdades? Ou fenômenos interpretados sob determinado vértice cultural?

Algumas vertentes até aqui apontadas neste breve texto talvez possam ser aplicadas aos fenômenos sociais, como por exemplo: a verdade pede um retorno à elucidação; ela escapa nos atos falhos e nas piadas; a verdade aparece porque tem uma força intrínseca. Ainda que queiramos ignorá-la ela voltará à tona, e dessa vez com a força brutal de uma doença ou com a força de uma revolta. A verdade pode aparecer em um lapso de linguagem, em uma brincadeira de criança, em uma história fantástica, em um sintoma corpora, em manifestações grupais etc.

O psicanalista conhecedor dessas características busca ajudar a pessoa a conhecer a si mesma, a conhecer suas fantasias imaginárias e a restabelecer essa conexão perdida consigo mesma.
Existe ainda uma estrada em que preciso transitar, e que requer algumas elucidações. Em psicanálise, conhecemos a tendência que a matéria e a mente têm, de repetir infindáveis vezes certo movimento, tal qual os de rotação e translação da Terra ou, ainda, as características de um gene que se transmite repetidamente por milhares de gerações. Em coerência com esse padrão vital, repetimos também certas experiências, às vezes conscientemente e, outras, em total inconsciência. Como expõe um velho dito: “E a história se repete!”. É a esta repetição que me refiro. Repetimos um jeito de falar, de andar, rir, pensar, encarar a vida e, inclusive, interpretar o mundo. Refiro-me ainda às heranças familiares, culturais, às que nos foram ensinadas, faladas, mas também, e principalmente, àquelas que não foram ditas, verbalizadas, mas sentidas e percebidas de modo tão desatento que ficaram esmaecidas em nossa mente.

Essas experiências podem atravessar anos e anos sem que delas tenhamos clareza, até porque não são conscientes; são verdades que não temos condições de interpretar porque os registros de memória não têm contornos passíveis de mentalizar e, consequentemente, de verbalizar.

Refiro-me a tudo isso porque estou tentando falar de verdades e mentiras. As verdades retornam e, aqui, volto à nossa política, finalmente.

Tentando construir meu pensamento, vejo-me às voltas com uma frase que surge sem pedir licença em minha mente: “Alguns colonizadores criaram povos; outros, plateias”. Pergunto-me o porquê desta frase neste exato momento.

Retomo minha estrada mais cognitiva e agarro esta frase para não perdê-la. Penso em seguida que podemos confiar na verdade, pois ela tem força, e o que de fato ela é aparece ou aparecerá, cedo ou tarde. Poderá surgir como um sintoma, como uma piada, como um mito ou sonho, ou até como uma frase inesperada e sem sentido. O que necessitamos é de uma decodificação.

Finalmente, acredito que a frase aparentemente aleatória aponte para meu enigma. Essa questão que me impacta é provavelmente a chave para a integração de meu trabalho mental:
Será que, enquanto brasileiros, herdeiros de um trabalho de colonização europeia e tendo sido plateia da corte além-mar, ainda nos coloquemos na mesma posição do passado, sem nos darmos conta de que o tempo passou? Será que o meu Brasil estaria tão doente, infantilizado, com uma parada em seu desenvolvimento, a ponto de assistir tão simplesmente seus descaminhos, tal qual a “belle indifférence” das histéricas do final do século XIX?

Pergunto-me se a enxurrada de piadas sobre o governo não seria o nosso sintoma maior. Somos ainda uma grande plateia que assiste os desvairos políticos, exatamente como outrora nossos antepassados assistiram as festas da metrópole?

Verdade ou mentira? Onde estará a verdade?

Apesar desse pensamento acima mencionado, podemos pensar que nos tornaremos adultos? O ”Gigante adormecido” acordará?  Penso que sim! O povo vem dando demonstrações a esse respeito e já dá sinais de consciência. A Verdade vem buscando emergir. Os políticos negam, os empreiteiros negam e eis que a verdade vem mostrando a sua face.

Ó herdeiro de Édipo, pergunte a Tirésias, o cego de Creta. Ele te revelará a verdade que tu mesmo já conheces!

Maria de Fátima Chavarelli