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"A VIDA PERTURBA A MORTE". A FORÇA DE EROS COMO PODER DE TRANSFORMAÇÃO. - MARISTELA BITTENCOURT NOGUEIRA

“A vida perturba a morte”
A força de Eros como poder de transformação

Quando decidi escrever esse trabalho, o desejo que mais me motivou foi a possibilidade de pensar e falar sobre algumas situações que vivi e experimentei em ocasiões diversas. Fatos que de alguma forma me impactaram, seja pela sutileza e beleza, ou pela sombra pesada do horror e da dor. Marcaram-me de tal maneira que tive o cuidado de deixa-los guardados em alguma caixinha da minha memoria, para que, num momento, no futuro, pudesse pensar melhor sobre eles. O escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano disse que “a memória não perde o que merece ser salvo”. Ao escolhemos o tema da jornada desse ano, achei que seria uma boa oportunidade para usar os conteúdos dessa caixinha. A jornada é um encontro só nosso, um evento interno que acontece no conforto e acolhimento da nossa casa institucional. Na segurança de um ambiente que nos possibilita escrever de forma mais livre, com zelo, pesquisa e dedicação, obviamente, mas que favorece e permite a expressão dos nossos tropeços e crescimentos, dificuldades e conquistas, o espaço para nossos ensaios. Achei que seria um bom momento para refletir junto com pessoas que compartilham, muitas vezes, das mesmas percepções e linguagem.


No verão de 2014, numa praia, estava aproveitando minhas férias, com aquela sensação boa de não ter compromisso para as próximas horas, os pensamentos voando de forma solta, olhando para o mar, sentindo o vento, escutando os barulhos típicos de uma praia mais urbana e movimentada. Não sei se são “ossos do oficio” ou simplesmente por ser curiosa, talvez pela junção dessas duas coisas, uma somando-se a outra, mas as conversas paralelas sempre me chamam atenção, seja na praia, num restaurante, no aeroporto... sempre me chamam a atenção. Notei uma família que estava sentada numa barraca perto da minha, pai, mãe e um rapaz que imaginei tivesse uns dezessete ou dezoito anos. Minha primeira impressão foi de acha-los meio bobos, as conversas entre eles não condiziam, no meu julgamento, com uma família com aquela configuração, os pais conversavam e tratavam o filho como se ele fosse uma criança e ele, o rapaz, parecia-me muito infantil para sua idade e tamanho. Como uma psicoterapeuta de crianças e adolescentes que sou há um bom tempo, é quase automático identificar comportamentos e falas destoantes a cada idade. Ele ficava abraçando e correndo atrás do pai quando este ia até o mar, falava coisas tolas e os pais sorriam e retribuíam o comportamento. Os adolescentes e mais jovens geralmente quase não conversam, ficam no seu mundo particular com o celular e seus fones de ouvido, e quando, esporadicamente, manifestam seu amor com contatos físicos, são bem econômicos em seus gestos de carinho.


Na arrogância do meu julgamento senti uma implicância e irritação pelos pais tratarem o filho de forma tão infantilizada e pelo filho se comportar como um menino. Inadequado, já que era um rapaz.


As conversas e o comportamento da família se transformaram no meu foco de interesse ali, não prestava mais muita atenção no que falavam as pessoas que estavam comigo.
Depois de algum tempo observando, na verdade mais ouvindo do que olhando, os olhares, quando eu os voltava para eles, eram sempre muito discretos, percebi que Bernardo (já havia descoberto que esse era seu nome) tinha algum tipo de comprometimento intelectual, algum retardo ou coisa assim.
Já não os achei tão bobos, meu olhar mudou. Na verdade me pareciam agora bem adequados, tanto os pais quanto o rapaz. O casal tratava Bernardo com muito carinho e eram atenciosos ao que ele lhes falava, tinham um agradável senso de humor com as colocações do filho. Na minha imaginação Bernardo passou de um jovem infantilizado para um filho amado e acolhido em suas necessidades e me parecia bem feliz ali num dia de praia com os pais, conversava sobre diversos assuntos, inclusive sobre o amor.  


 - Mãe, quanto tempo demora para parar de sofrer de amor? – pergunta Bernardo com um sorriso de canto de boca, parecia envergonhado. Seria por estar falando de seus sentimentos?
- uns cem dias. - responde a mãe de Bernardo depois de pensar por um instante de tempo.


Fiquei encantada com a delicadeza e profundidade da pergunta de Bernardo, um jovem que horas atrás eu havia imaginado como pouco maduro para sua idade, e com a sabedoria na objetividade da resposta de sua mãe, que me parecia, agora, saber bem como atender a individualidade daquele filho. Uma família que achei inapropriada no principio transformou meu olhar e me vi com sentimentos de ternura e admiração por pessoas que nunca tinha visto antes.


Essas divagações a respeito de Bernardo e sua família foram apenas divagações, não os vi mais nos outros dias que estive por ali, mas a cena ficou agradavelmente marcada na minha memória, com aquela sensação boa que nos aquece a alma. Gostava deles sem conhecê-los, gostei de Bernardo na sua doçura e de seus pais na capacidade de acolher o filho. Entretanto, não foi assim no começo, implicância e irritação foi o que senti quando os vi pela primeira vez, foi o meu olhar que se transformou. E o que aconteceu, e como se deu esse processo de mudança? A transformação de sentimentos: do hostil para o amoroso. Seria uma identificação minha com os pais de Bernardo, como o que ocorre com pais de crianças com necessidades especiais, que vai desde a negação a aceitação? Afinal, no final dessa cena, eu já estava tomada por sentimentos de ternura e me divertindo com suas conversas e perguntas, como estavam seus pais quando os encontrei. Ainda que seja identificação com esses pais, evocando a clínica, não parece semelhante à dinâmica que vivemos com nossos pacientes? A chegada de um desconhecido, suas historias, seu comportamento, nossas percepções e sensações e o consequente processo investigativo, onde se faz necessária a curiosidade e o interesse sobre quem nos chega e sobre o que sentimos e percebemos. Pacientes que muitas vezes nos provocam irritação, cansaço, desânimo, e que se conseguirmos algumas compreensões, podem até nos despertar mais interesse. O processo vivo da relação paciente/analista que muda e nos modifica o tempo todo. Ogden (1996), a respeito disso, fala que o confronto com a alteridade não nos dará descanso, uma vez registrado esse encontro não mais será permitido permanecer quem éramos. O encontro é uma perturbação, é disruptivo.


 Não é minha intenção nesse trabalho refletir sobre os caminhos e dificuldades de pais que tem um filho com necessidades especiais, isso daria outro trabalho com estudos especificamente referentes a esse tema, mas tenho sim, a intenção de pensar no percurso e interjogo desse olhar que liga ou desliga o interesse e investimento no objeto.


Paim Filho (2014), em seu livro “Metapsicologia: um olhar a luz da pulsão de morte” nos aponta que até 1920, Freud considerava o corpo como fonte da pulsão sexual, amparando-se na ideia de que cabia a mãe despertá-la, o autor acentua: despertá-la, não criá-la. Com a virada dos anos 20 e o estabelecimento do conceito de pulsão de morte, o corpo passa a ser a fonte da pulsão de morte e a pulsão sexual será criada a partir do investimento materno. Para Paim Filho a libido vem do objeto, sendo que esse objeto tem a função de ligar, vincular, dando à pulsão a qualidade de sexual. Essa ideia pressupõe o autor, dá maior consistência à posição freudiana de que o narcisismo primário é produto do investimento parental.


Melina é uma paciente de análise, que está em tratamento há quase um ano, Melina se queixa que sua vida não saiu do lugar, está estagnada, insatisfeita com sua vida profissional e pessoal. As vésperas de completar  quarenta anos sente que não realizou nada, não conquistou seus sonhos. Sonhos têm muitos, mas as duvidas e o medo a paralisam e a confundem. Melina é insatisfeita, ansiosa e angustiada. Está sempre irritada e impaciente, inclusive comigo, tem baixa tolerância a erros, e demonstra isso claramente quando por algum motivo não entendo ou me engano com algo. Num período de sua análise, suas queixas giravam em torno do seu peso, com seu corpo também não estava satisfeita.


- Você precisa me ajudar a emagrecer! – fala a paciente, num discurso que tinha uma mistura de desânimo, idealização pelo papel da análise, mas principalmente de desespero na tentativa de encontrar um caminho – já fiz todos os tipos de exames, não tem nada de errado com meus hormônios ou metabolismo, há quantos anos estou tentado dietas, emagreço uns dois ou três quilos e daqui a pouco volta tudo de novo. Só pode ser psicológico, ouço dizer que nossas emoções influenciam no nosso peso. Não aguento mais, estou pesada, me sinto cheia, gorda, com esses excessos.


Nesse período minhas interpretações giravam em torno do peso de uma vida carregada de insatisfações e indecisões, que se acumulavam deixando-a cheia, com excessos, pesada e paralisada.
As sessões com Melina me exigiam muito esforço, percebia que ficava atenta para não me enganar com nada que ela já houvesse me comunicado, pois quando isso acontecia pagava um alto preço, ela se irritava e me criticava sem piedade. Antes mesmo do seu horário já começava a me sentir cobrada, exigida além do horário normal da sessão, muitas vezes me sentia incompetente e tola perto de Melina. Minhas intervenções pareciam insuficientes e tinha a sensação que surtiam pouco efeito em sua vida. As sessões com Melina eram marcadas por irritação e reclamações, e trazia a expectativa de que era a analista a responsável por dar as respostas e soluções para suas queixas.


Eu ficava esgotada, sobrecarregada, Melina parecia pesada para mim, minha  fantasia era de que a análise não desempenhava a sua função de introspecção e reflexão e não acrescentava nenhuma transformação na vida da paciente. Mas ela não desistia, nem eu tampouco. Não atrasava para as sessões, nem faltava, ainda que, muitas vezes, desejei que isso acontecesse. Havia um tom de desespero no seu discurso, seria a dor de não estar vivendo?  A esse respeito, Paim Filho (2014), diz: “[...] todo sujeito que procura o analista, vem em busca de modificar o seu jeito repetitivo de ser, romper, desfazer conexões e poder criar novos nexos; em termos pulsionais, instrumentalizar o poder desorganizador da destruição com o potencial organizador da libido.” Penso que foi através dessa percepção, a dor de Melina, que me mantive acreditando que pudesse ajuda-la de alguma forma. Nos seminários e supervisão compreendemos que, em alguns momentos, mais importante do que a interpretação é a escuta, o processo de transformação parece acontecer primeiro no analista. Percebi que o peso que Melina trazia, e contratransferencialmente eu sentia, era o peso da pulsão de morte, sua irritação sempre presente comunicava o peso da sua dor.


Este mesmo autor nos lembra que a pulsão de morte é uma força cega, sem qualidade, que só visa a descarga, e nos propõe a reflexão da ideia da angustia como a melhor forma de apresentação do irrepresentável da pulsão de morte.


Qual é o peso da pulsão tanática?  E mais, como a psicanálise trata a pulsão de morte quando esta se faz tão intensa e predominante? Podemos pensar que meu movimento contratransferencial de irritação e desconforto no inicio, para uma compreensão de que o peso que ela me pedia ajuda era o peso das desconexões, podemos pensar nesse movimento como a desconstrução do estabelecido para o advir de novas ligações?


Ao refletir sobre a dualidade da pulsão, na indissociável completude vida e morte, ocorre-me a imagem dos campos de concentração nazistas. O primeiro deles foi Dachau, em Munique. O primeiro campo de concentração a ser planejado e que serviu como modelo para todos os outros que vieram depois. Dachau está localizado na cidade com o mesmo nome, cerca de cinco quilômetros de Munique, e por si só, é antagônico. Foi estrategicamente construído em um bairro mais afastado, porém nem tanto, atualmente existem muitas casas em volta dele. Seu entorno é muito arborizado e agradável, lembrando os parques das cidades. Beirando a lateral de sua entrada corre um riozinho de aguas limpas e fortes, tornando o lugar mais bonito e agradável, a sensação é de paz e tranquilidade, não fosse o barulho incomodo que acompanha, por todo o tempo, os que passam por ali, o barulho que grita os horrores e dores do qual este lugar foi palco. Uma sombra de horror e tristeza, emoldurada pela luz da bela natureza do lugar. Na entrada do campo, com a celebre frase que emoldurava as entradas de todos os campos nazistas, “o trabalho liberta” é quase impossível não pensar em liberdade, no privilegio de viver no tempo e espaço em que se pode entrar e sair, exercitando o verdadeiro sentido da palavra. No local onde ficavam os alojamentos, um campo aberto, e duas fileiras de pinheiros formando um longo caminho, que pelas fotos, observa-se, estavam ali desde aquela época. O desassossego está na percepção de que a beleza e o horror tornaram-se inseparáveis nesse lugar.  Tal como é inseparável a vida da morte? Chamo a atenção para o desassossego, a perturbação sentida, e a duplicidade entre a destruição tanática e a possibilidade, promovida pela perturbação, da construção de novos significados.


Do not forget. A frase símbolo do holocausto parece representar muita bem a aparente dicotomia que Paim Filho chamou de destruição vitalizante. A imperativa lembrança da morte como forma de valorização da vida. Afinal, a vida não se torna mais valiosa quando aceitamos seu fim? Nesse sentido pede-se que: não esqueça! Não esqueça  da força da pulsão de morte. Em Dachau, uma faixa de grama, localizada entre a fileira de alojamentos e as torres dos guardas, recebeu o nome de faixa da morte, pois caso o prisioneiro pisasse nessa faixa, imediatamente era assassinado, sendo assim, muitos que desistiam da vida, pisavam na faixa.


O que nos prende a vida, ou nos desprende dela? É uma força inata que independe do meio ou essa força só passa a existir através das ligações que, no inicio, fortuitamente, nos é dada e aprendemos e continuamos a fazer ao longo dela? Qual a força que nos vincula ou nos desconecta e vai colorindo o caminho da pulsão originária e a predominância em qualitativo vitalizante ou tanática? Em outras palavras, o que nos faz escolher um lado ou outro da faixa?

Referências Bibliográficas

OGDEN, Thomas H. (1996) Os sujeitos da psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo.
PAIM FILHO, Ignácio Alves. (2014) Metapsicologia: um olhar à luz da pulsão de morte. Porto Alegre: Movimento.